Antes do Babel existir eu já cozinhava regularmente em casa, fazendo dos amigos cobaias de cozinha. O serviço era caprichado: recebia os amigos com belisquetes (tal qual um couvert), seguíamos de entrada, prato principal e sobremesa, sempre à francesa.
A harmonização era sempre com vinho, àquela época rótulos mais simples que os habituais de hoje em dia, mas igualmente agradáveis (visto a menor experiência e exigência enológica de então).
Nossa boa-intenção se estendia até mesmo às etapas pós-pratos salgados, incluindo licores, Portos e (pasmem!) até mesmo vinhos de sobremesa (uma raridade, 8 anos atrás).
Isso criou um efeito colateral inesperado: minguaram os convites dos amigos às suas casas, preocupados que estavam em ter de replicar essa hospitalidade.
Mais à frente, com a inauguração do Babel, o cenário piorou ainda mais e aconteceu uma coisa que praticamente todos os chefs passam: os amigos com medo de ter de cozinhar para um profissional de cozinha!
Sempre argumentei “a comida não tem que ser sofisticada para ser gostosa”, “comida boa é aquela feita com carinho e dedicação” ou que “nós não vamos à casa dos amigos pela comida, e sim pelos amigos”! Tudo em vão.

Luís Conrado (à frente, de dólman) e Gustavo Shimoda.
Após vários anos de relutância e adiamentos, um de meus mais fiéis pupilos culinários – Luís Conrado, me convidou para um jantar em sua casa no final de janeiro.
O outro convidado (além das “respectivas”) era Gustavo Shimoda (vulgo Sumô), todos os três contemporâneos de Engenharia Mecânica na UnB. Aliás, Gustavo também foi um dos alunos de primeira hora dos cursos culinários do Babel, e certa vez convidou os amigos para jantar em sua casa.
Como ele já havia cursado 3~4 aulas de cozinha, esperava-se que Gustavo pilotasse as panelas, mas ele vergonhosamente fugiu à responsabilidade e delegou a função à esposa. Esta alfinetada vinha sendo maquiavelicamente engendrada há anos.

Cestinha de massa harumaki, cogumelos salteados com nirá e cobertura de gema de ovo mollet.
Conrado não se fez de rogado e caprichou. Recebeu-nos de dólman à porta e mesa posta com taças profissionais alemãs.
Bom pupilo que é, executou serenamente uma seqüência de 3 etapas acompanhadas de espumante e vinho tinto. Vale observar que Gustavo deu um passo rumo à redenção, ao assumir o papel de assistente na execução do jantar.

Sorvete com farofinha crocante de Neston.
Saldo da noite: 3~4 garrafas de vinho tomadas, amigos reunidos, e muita conversa agradável. A comida nem precisava estar boa… mas estava!!!