“Se a vida lhe der um limão… faça uma limonada!”
Quando fui convidado pela Prazeres da Mesa e pelo SENAC para dar uma aula no Ao Vivo 2009 o tema designado foi um genérico “peixe de água doce”. Notei então que, à exceção da modesta tilápia, quase todos os peixes com que eu estava acostumado a lidar são de água salgada.
Resolvi então executar a variação de uma receita que criei para o livro “A Pesquisa e os Sabores do Brasil”, da EMBRAPA, onde fiquei responsável por um menu amazônico. A receita original era uma tranche de robalo pocheado em tucupi e servido sobre um leito de alho-poró sauté. Adequei o peixe e alterei o acompanhamento para ficar mais com a cara de minha cozinha.
De Brasília levei alguns enfeites (brinco-de-princesa e “cereja-de-codorna”) e a panela elétrica japonesa (Zojirushi) pra cozinhar arroz. Cheguei a cogitar levar o tucupi, só por precaução, mas pensei: “Se conseguimos encontrar tucupi em Brasília, não é possível que em Sampa isso venha a faltar!“.
Em sua aula a quatro mãos com Ana Luíza Trajano (rest. Brasil a Gosto/SP), o mocotó-man Rodrigo Oliveira (rest. Mocotó/SP) proferiu, em tom de brincadeira: “Queremos comprar tucupi com a mesma facilidade que se compra aceto balsâmico“.
E não é que quatro horas antes da aula um rapaz da organização me liga perguntando se haveria a possibilidade de eu levar o tucupi de Brasília. “Amigão… eu estou em Sampa desde ontem, não sei onde comprar as coisas por aqui, e já estou embarcando no táxi rumo ao SENAC!“.
Às vésperas da aula as pessoas me perguntavam se eu estava preocupado. Lições de minha vida: aprendi que “o que não tem remédio, remediado está”, e que ficar nervoso nos dá trabalho duplo (um trabalho pra ficar nervoso, e outro pra acalmar). A uma hora do dead-line chegaram as garrafas de caldo amarelado.

Minha aula era uma das primeiríssimas do Ao Vivo. Apesar disso, o receio inicial quanto ao quórum não se confirmou: trabalhamos com sala lotada.

Para a empreitada convidei alguns amigos: Joca Pontes (rest. Ponte Nova/Recife), Jonatas Moreira (rest. Akuaba/Maceió) e meu brother-de-cozinha Heiko Grabolle, que acabou não podendo comparecer devido a uma repentina e violenta gripe.

Lombo de tambaqui com redução de tucupi acompanhado de risoto shari de nirá com shiitake.
INGREDIENTES (4 porções)
(Tucupi) 4 folhas de chicória; 600 ml de tucupi; pimenta branca; 25 gr de manteiga; sal
(Risoto) 500 gr de arroz de sushi; 100 ml de vinagre de arroz; 100 ml de sakê; 2 c.s. de açúcar; 1 c.s. de gengibre picado; 100 gr de shiitake em julienne; 1 maço de haná-nirá em brunoise; 50 ml de shoyu
(Tambaqui) 600 gr de lombo de tambaqui; farinha de trigo; sal e pimenta-do-reino
MODO DE PREPARO
Leve o tucupi à fervura com as folhas de chicória até reduzir a 1/3 do volume. Elimine as folhas, tempere com sal e pimenta branca a gosto, emulsione a manteiga e reserve.
Cozinhe o arroz na panela elétrica japonesa. Leve à panela o sakê, o vinagre, o gengibre e o açúcar. Quando ferver utilize esse caldo para temperar o arroz. Salteie o nirá com o shiitake e tempere com o shoyu. Agregue também essa mistura ao arroz e reserve quente.
Passe o tambaqui na farinha de trigo e bata para eliminar todo o excesso. Grelhe ambas as faces até dourar.
MONTAGEM
Molde o risoto shari, faça um leque com os pedaços de lombo de tambaqui e regue a redução de tucupi por cima. Decorei com uma redução doce de shoyu, ramos de haná-nirá, flor brinco-de-princesa e “cerejas-de-codorna”.
Ano passado preparei e servi o robalo pocheado em tucupi para Christophe Pouy, chef e professor do Ritz Escoffier de Paris. Ele demorou a acreditar que não levava limão.
A brincadeira da receita é exatamente pegar o dueto peixe-limão que o brasileiro tradicionalmente acata e substituir a acidez cítrica por outra fonte (no caso o tucupi).
O esperado choque que poderia vir de parte da receita, escancaradamente brasileira, com a outra, totalmente oriental, acaba se mostrando bem harmonioza, com o shari amaciando o peixe com sua textura e toque levemente adocicado.
“Se a vida lhe der um limão? Agradeça, dispense, e use tucupi!”
