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Certa vez fui convidado para um evento da Nespresso em São Paulo. Além da vergonha de chegar atrasado – já no meio da apresentação, ainda me dei conta que a maioria estava de terno ou blazer, enquanto eu estava de dólman. Olhando com calma, vi que os outros chefs presentes eram o Bassoleil, Murakami, Atala, Jun Sakamoto, e outros dessa estirpe. Pensei comigo: “acho que recebi por engano o convite de outra pessoa”!

Ontem recebi uma ligação de Edson Monteschio convidando para um jantar em seu restaurante, o Dom Francisco (da CLS-402). O propósito era apresentar alguns vinhos de uma vinícola-butique de Santa Catarina – a Villagio Grando, que ainda não tinham sido lançados comercialmente e sequer tinham o projeto de marketing finalizado. Pensei mais uma vez comigo: “acho que recebi por engano o convite de outra pessoa”!

Chegando lá fui encaminhado à salinha reservada, onde o diminuto grupo contava ainda com a presença de Eugênio Oliveira, Rafael Costacurta, Marcelo Camargos (representante da World Wine e da referida vinícola) e sua esposa.

Vamos manter as tradições: começando com o couvertzinho básico...

...até que Edinho chega com esse azeite na mão, do mesmo produtor do Sassicaia. Shooooow!!!

O primeiro vinho da noite foi um espumante rosé (notaram a garrafa ainda sem rótulo, apenas com uma etiqueta de identificação?). Perlage intensa e um retrogosto nítido de cereja... quase de kir royal!!!

Continuamos com um Sauvignon Blanc incomumente amarelo, baixíssima acidez, e sem o característico perfume de frutas tropicais. Intrigante.

Em seguida passamos para um Chardonnay curiosamente mais claro que o vinho anterior, num tom amarelo-palha, com mais acidez e mais frutado! A discussão passou a ser sobre a possibilidade de um erro, de uma troca na etiquetagem/identificação dos vinhos. Será?!

O vinho seguinte, em minha leiga opinião, foi o melhor da noite - o rosado. Como não havia rótulo e as fichas técnicas do produtor não haviam chegado, ficamos sem saber ao certo quais uvas a compunham. Uma quase certeza à mesa é que seu método de produção foi a "sangria" (quando o vinho não é proveniente de produção específica de vinho rosé, mas uma tiragem "antecipada" do meio da maceração para produção de tintos).

O opulento tinto da casa foi produzido com consultoria do português Antonio Saramago e harmonizou com o jantar. No meu caso, um irretocável ossobuco com polenta mole trufada... e comendo o tutano de colherinha!

Alguns acompanhamentos extras vieram à mesa, como o tradicional arroz de brócolis e (no lugar da famosa farofa de ovos) uma farofa de banana. Campeão disparado estava o palmito - fresquíssimo, produzido aqui no entorno de Brasília.

A sobremesa foi um petit-gateau de chocolate branco: capa tostadinha, miolo bem cremoso e gosto característico daquele chocolate. Acompanhou o Colheita Tardia da vinícola, com dulçor mais baixo que os tradicionais vinhos de sobremesa e altíssima acidez.

Vinícola-butique, terreno pequeno, baixa produção e um dono apaixonado por vinhos: praticamente todos os rótulos da noite tinham alguma surpresa, um bouquet incomum, características diferentes das que seriam esperadas para sua uva de origem. A conclusão foi que provavelmente a proposta da Villagio Grando era exatamente inovar, deixar seus vinhos diferentes dos usuais e surpreender.

Saldo da noite: muuuuuitas taças à mesa e a certeza que os vinhos nacionais estão progredindo... só falta vencer a questão tributária!!!

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