Estive em Trancoso há 3 anos atrás, fazendo uma rápida visita a seu famoso “Quadrado” – uma ampla praça gramada, aberta, sem acesso a veículos auto-motores, rodeada por simpáticas lojinhas e restaurantes .
Àquela vez meus companheiros de viagem fizeram um terrorismo a respeito dos custos da localidade, do tipo: “se sentarmos pra tomar um chopp, a porção de fritas pra acompanhar fica nuns 25~30 reais”. Seja verdade ou seja a sugestão, de fato ficou incutida em minha mente a noção de ser um local de preços elevados.
Pois ontem voltei a Trancoso pra encontrar um casal de amigos (e seus filhos) que estão hospedados no Club Med vizinho. Tendo chegado mais cedo, eles fizeram uma pesquisa prévia pelos cardápios da região.
Da peneira fina restaram uma casa chamada Cacau e o Capim Santo (da família de Morena Leite), mas acabamos optando pelo restaurante Bar da Praça.
Pesou na decisão a bela placa à entrada, informando que a Carta de Vinhos era da Enoteca Fasano, além de que, ao entrarmos, encontramos um mosaico de pequenos e variados ambientes, todos eles charmosíssimos.
O cardápio aumentou a expectativa, com promessa de um jantar interessante. As entradas fugiam do trivial, e cogitamos uma costelinha suína com molho oriental picante, mas estava em falta. Optamos por um duo de ceviches (R$ 27) que agradou.
Na hora de escolher os pratos, para nossa surpresa todas as 9 opções (um risoto, um filé e 7 massas)  estavam na faixa entre 33~39 reais, além de uma seção extra chamada “Comidinhas Baianas” com 3 pratos a R$ 41~43.
Enquanto esperávamos o pedido, o assunto dominante foi o quanto a carestia da cidade havia mudado e que a fama não mais se justificava.
Durante quase 30 anos minha família teve restaurantes chineses onde uma porção de entrada de pastéis wan tan fritos vinha com 10 unidades. Imagine nossa surpresa quando meu prato de coccolino de faisão com café chegou com apenas 6 massinhas recheadas do tamanho dos wan tans?!
Não estava ruim – o recheio de faisão estava saboroso, mas a massa deveria ter sido menos cozida, e qualquer lembrança de café passava longe.
Nossa amiga pediu panzottis pretos e brancos de truta com manteiga de nozes: bons, ponto da massa correto, mas tamanho de porção igualmente ridícula curiosa.
Para minha esposa coube o fiasco da noite: oruga com gergelin preto, maçã, mel e shimeji. Orugas são massas em formato de tartaruga, o que àquela hora (e estado de espírito) achamos uma “forçação de barra”. Visualmente pareciam pedaços grossos de massa com recheio quase nulo, sem molho, e gergelin salpicado somente sobre uma das 6 unidades.
Se em pratos quentes maçã e shimeji têm de se esforçar pra marcar presença, imaginem se nós conseguimos detectá-los?! Nem o mel e sua pungência deu o ar da graça.
Só quem se salvou (no tamanho da porção servida) foi o prato de meu amigo – Kadu Postiga, um robalo em folha de bananeira com farofa de neston, sorrateiramente pedido dentre as “Comidinhas Baianas”.
Questionado, o garçon disse que realmente só as tais “Comidinhas Baianas” vinham em porções mais razoáveis, ao passo que as outras eram pequenas, do tipo menu-degustação… O PROBLEMA É QUE NO CARDÁPIO DIZIA “PRATOS PRINCIPAIS – MAIN COURSE”!
A consternação e insatisfação à mesa eram tão palpáveis que a única solução pra não arruinar a noite era levar na brincadeira e tirar sarro disso.
Conhecem o termo “vergonha alheia”? Pois eu sofro com isso. Nunca consegui assistir “Namoro na TV” porque EU sofria com o mico que os participantes se dispunham a passar.
Fazíamos piadas e dávamos boas risadas enquanto eu morria de medo que a chef (que passou duas vezes pelo salão) viesse à nossa mesa. Não sei quanto aos outros, mas eu fiquei com vergonha do jantar.
Da noite salvaram as companhias, a conversa, o belo vinho Sideral levado por Kadu, os gigantescos brigadeiros-de-colher, meu picolé Diletto pistacchio e os Nespressos… mas pra isso não precisaríamos ter ido a Trancoso.

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