Antes de embarcar para minha temporada européia os amigos me abordavam e diziam sentir uma “inveja branca” de meu projeto, do quanto a experiência seria agradável, que gostariam de poder fazer o mesmo, do quanto eu ia curtir.

Para minha esposa perguntavam se ela iria junto. Diante da resposta negativa insistiam perguntando quando ela viajaria para ir me visitar. De tanto lhe fazerem essa pergunta, ela mesma veio me questionar se eu achava que ela deveria fazê-lo.

Durante a estadia além-mar, volta e meia as pessoas insinuavam que eu estava tendo um “vidão”. Deparando-se com minha esposa, atarantada com o trabalho e cuidando das crianças, diziam: “Ê… você aí ralando e o William naquela mamata!“.

Agora mesmo, nesse breve regresso, a pergunta que mais ouço é: “acabou  aquela tua moleza?!“. Como aprendi com um amigo, é melhor ouvir isso do que ser surdo.

Quando comecei minha temporada no Mirazur costumávamos entrar na cozinha às 8:30 hs da manhã. Algumas semanas depois, constatando que a altíssima temporada tinha acabado, o horário de entrada passou para as 9 da manhã e uma orientação foi dada de modo que a carga de trabalho diária dos temporários não excedesse 12 horas. Isso mesmo: DO-ZE-HO-RAS!

O expediente começava às 9:00 hs. Às 11:30 parávamos para almoçar, o que era feito em 5~10 minutos. Voltávamos aos nossos postos e íamos até o final do turno (o que costumava ser entre 15 e 15:30 hs).

O intervalo ia até as cinco da tarde, não deixando muito tempo para sair. No máximo íamos ao Eurodrink, uma lojinha de bebidas e conveniência do lado italiano da fronteira, a meros 100 metros do restaurante. Na maioria das vezes todos voltavam ao alojamento, acessavam a internet e tentavam tirar uma soneca rápida.

Voltando pro turno da noite, parávamos outros 5~10 minutos de jantar às 18:30 hs. Nas noites que dávamos sorte o expediente encerrava às 23 hs; nas noites de azar, íamos até… bem… o último cliente.

Terminado o dia de trabalho todos corriam de volta ao alojamento, tomavam um rápido banho frio (pois a água quente sempre tinha sido esgotada na faxina geral da cozinha), e nos permitíamos finalmente um tempo para nós mesmos: checar email, assistir algum vídeo/filme no computador, ligar via Skype pra casa, tomar alguma bebida refrescante, bater um papo com os colegas ou simplesmente ficar sentado à toa na varanda.

Fazendo as contas, isso dá uma carga diária de trabalho que variava de 12 a 14 horas de pé, e no dia seguinte a mesma rotina se repetia. Durante os cinco dias seguidos (de quarta-feira a domingo) de casa aberta chegávamos a sequer pôr os pés fora do estabelecimento. Nas folgas o banco-de-horas-de-sono vinha cobrar a conta, e na segunda-feira dificilmente alguém levantava antes do meio-dia.

Mas essa era a rotina DOS TEMPORÁRIOS. Os cozinheiros permanentes por vezes continuavam trabalhando no intervalo, após o encerramento e faxina da noite, e ainda tinham afazeres nos dois dias de folga (compras nos mercados de Ventimiglia, comandar abastecimentos junto a fornecedores, ministrar aulas e, esporadicamente, eventos extras).

Imagine ainda que os cozinheiros de garde-manger tinham de estar de pé diariamente às 7:30 hs para colher flores e ervas nos jardins do restaurante.

Então, trabalhar/estagiar na Europa é uma delícia? Não, definitivamente não é, mas para tudo existe um preço. O sacrifício é o custo pago pelo aprendizado e/ou melhora no currículo, o que interessar a cada um.

Moleza? Não vou discutir/brigar para não perder um amigo. Novamente, é melhor ouvir isso do que ser surdo.

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